quarta-feira, 27 de abril de 2011



“Se nós, nas travessuras das noites eternas,
 já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir”.
Chico Buarque







 A sensação única de sentir-se só na multidão. Sentia-se só como há muito não se sentia. Mas de uma forma, sempre se sentiu assim. Solidão estava estampada na sua vida, como se corresse nas veias e sua maior tarefa no mundo, era combatê-la, ou juntar-se. Anoiteceu. Acendeu mais um cigarro, o quinto daquele dia. Não era o cigarro que a matava, e sim, as memórias. E a perspectiva de estagnação. Acendeu uma vela. Permanecer na escuridão era uma forma de não enfrentar a vida, manter-se de olhos fechados, ignorando qualquer alteração ao seu redor. Era assim que a vida deveria ser, mas há teimosia em doer. Colocou um jazz na vitrola. Tirou o telefone do gancho e ali ficou. Horas deitada no tapete, com a mente vazia, vazia. Estava lotada de vazio há muito. Tudo que precisava era lotar-se de nada. Lotar-se de sentimentos novos e esvaziar-se dos velhos. Livrar-se do antigo. Antigo. As coisas se acumulam. As boas e as ruins. Com o tempo, esse acúmulo incomoda e faz com que fiquemos cada vez mais lentos.
Antes de tudo escurecer, as coisas eram diferentes. O amor corria livre pelo campo amarelo, era livre de toda a responsabilidade massacrante da rotina e eles corriam; corriam com o sorriso no rosto e amor no coração. Mas as coisas mudam. Toda flor que é plantada, colhida, morre. Mesmo que muito tempo depois. O que um dia foi uma frase de amor, hoje são palavras no vento. No vento de uma tempestade. Da tempestade da separação.
Eram como crianças. As crianças puras, que nada temem. Bem aventurados são os que permanecem assim a vida toda, sem amargurarem-se. São poucos os que conseguem. Ela vê a Amargura de perto, que visita-a todas as noites. Faz companhia como o cão acompanha o dono e chora. Chora no seu colo, como se a culpa fosse sua. Maldita Amargura! Arruinou tudo e abana o rabo. Parabéns. A arte de ser dissimulada. Hoje eles são dois anônimos. Dois anônimos machucados pela Amargura e pelo desgaste do tempo da flor colhida. Feridas. Somente isso que resta do vento da tempestade. Somente. A poeira abaixou e não há band-aid que cubra a cicatriz que permanece. Soa como a eternidade. A eternidade da ferida viva na alma.

O que um dia foram, hoje não são. Além da ferida, resta o medo. O medo de repetir os erros. O erro de plantar. O erro de colher. O erro de morrer.
Agora era tudo caos. O caos de um coração só; preso num corpo frio de calor humano e quente da solidão da rotina.
O frio que lá fora fazia, penetrava em seu corpo frágil como o amor penetra no coração dos fracos e inocentes. Não conseguia dar um fim à sua agonia. À sua agonia permanente de muitos meses na companhia de Amargura. E mesmo que conseguisse, sabia que esse fim teria fim. Algo que com o tempo, acabaria retornando às suas noites em claro, à sua mente, à sua alma. Cutucaria a ferida diariamente, jorrando sentimentos em forma de sangue bruto. Sangue vivo. Sangue morto. Quem sabe um dia isso acabe. Ou eu acabe. Acabar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Quatro

Toda vez que ela espirrava, sonhava. Quando sonhava, não era ela. E ainda assim, era. Era como se não fosse. Mas ainda assim, era.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Três

Estou me sentido tão alheia a qualquer coisa do mundo. Isso não é verdade. Nunca fui alheia a nada. Sinto-me sempre. Mas continuo não sendo. Ou penso que não sou.
No final das contas, penso que sou tantas coisas, e sou outras mais.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Dois

Ela queria escrever um conto. Procurava em todos os lugares qualquer indício de um. Talvez um ponto final, na calha suja do telhado. Procurava na ação dos filmes qualquer ideia que fizesse algo menos clichê do que café, Londres e decepção amorosa. Na água da chuva, que caía fina e lenta no centro da cidade, pensou no personagem. Talvez uma moça, morena, que colecionava tampinhas de Itubaína. Vivia num lugar sujo, onde as privadas são verdes, e a luz não faz diferença alguma na escuridão da noite. Muitas pessoas dizem não ligar pra solidão, mas ela realmente não se importava. Ou tentava.
Passava suas noites escrevendo. Seu lixo, enchia-se de folhas amassadas e sujeiras de lápis apontados. Por mais que ela escrevesse, suas histórias não tinham fim. Talvez não tivessem fim porque ela não sabia dar-lhes fim. Ou talvez, porque não queria dar-lhes fim. Sem fim, as histórias continuavam vivas; não eram finalizadas pela sentença do ponto final. E assim seguia. Sem fim.

Um

Cá estou eu, de volta. E realmente não sei mais o que achar do mundo. Está cada vez mais difícil encontrar motivos pra não chutar o balde e deixar de mão das coisas que mantenho por educação.