sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Dois

Ela queria escrever um conto. Procurava em todos os lugares qualquer indício de um. Talvez um ponto final, na calha suja do telhado. Procurava na ação dos filmes qualquer ideia que fizesse algo menos clichê do que café, Londres e decepção amorosa. Na água da chuva, que caía fina e lenta no centro da cidade, pensou no personagem. Talvez uma moça, morena, que colecionava tampinhas de Itubaína. Vivia num lugar sujo, onde as privadas são verdes, e a luz não faz diferença alguma na escuridão da noite. Muitas pessoas dizem não ligar pra solidão, mas ela realmente não se importava. Ou tentava.
Passava suas noites escrevendo. Seu lixo, enchia-se de folhas amassadas e sujeiras de lápis apontados. Por mais que ela escrevesse, suas histórias não tinham fim. Talvez não tivessem fim porque ela não sabia dar-lhes fim. Ou talvez, porque não queria dar-lhes fim. Sem fim, as histórias continuavam vivas; não eram finalizadas pela sentença do ponto final. E assim seguia. Sem fim.

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